sábado, 12 de abril de 2008

Saideira - Revista BRAVO!


"A espada flamejante do querubim"

"Nasci e fui criada no convento das carmelitas. Minha mãe deixou-me com minhas irmãs e sumiu no mundo. Minha vida era bem diferente da vida das outras moças. Nunca fui a um baile nem tive namorado. Meu prazer eram as noites em vigília, os jejuns e as orações. Minha alegria era servir ao Nosso Senhor. Por mais que eu explicasse às irmãs o que eram esses momentos de êxtase, elas não compreendiam. “Você é maluca”, diziam com desdém.
Era comum me encontrarem dormindo no chão da capela, pela manhã aos pés do Crucificado. Isto porque, depois do júbilo, eu perdia os sentidos e caía no chão. Acordava com a madre superiora me chacoalhando aos berros: “Irmã Inocência, acorda. O que aconteceu?”. Eu nunca sabia explicar. “Eu estava no meu quarto quando ouvi o Senhor me chamando...” Depois disso não me lembrava de mais nada.
Certa noite acordei com alguém batendo na porta do meu quarto. Pensei ser uma das irmãs, mas não. Era um homem alto, loiro, forte, de barba rala e olhos azuis. Um querubim que chegou sem anúncio nem trombetas, sem raios nem vendaval. O anjo entrou, sentou-se na beira da cama e me disse estendendo a mão: “Vem Inocência”. Eu obedeci. Só um anjo pegaria nos meus ombros e me colocaria deitada com tanta delicadeza, colocaria minhas pernas sobre a cama e tiraria minha camisola tão devagar, poria as mãos sobre minhas coxas e as alisaria como se moldasse o barro da criação.
Ao ver que eu estava sem calcinha, ele sorriu.
Certa vez a madre superiora me disse que mulher que dorme sem calça espera a visita do demônio. Ela estava enganada. Sempre dormi sem calcinha e quem apareceu foi um emissário do Senhor, que encostou os lábios no meu ventre e me beijou bem ali, onde os pêlos começam, e foi descendo a língua até chegar àquele ponto onde uma mulher não pode ser tocada sem que lhe venha um desejo irrefreável de morrer. Procurei sua boca e enfiei nela minha língua, o mais fundo que pude. Ele lambeu meu pescoço, minha orelha e sugou meus seios com tanta volúpia que eu quase perdi os sentidos. Abri as pernas e empurrei-o para dentro. Foi então que o anjo enfiou-me a espada flamejante e rompeu meu sexo como o sol rompe a manhã. Devagar e completamente. Cravei as unhas nas suas costas e pedi que ele o fizesse com mais força.
E o mais engraçado é que o tempo todo o anjo falava essas coisas que os homens costumam dizer para as mulheres com quem se deitam: ai que tesão, vem cá minha gostosa. O anjo era tão devasso como um qualquer. Parecia de carne o corpo do querubim. Se a espada dava ares de arrefecer, eu logo tratava de fazê-lo flamejar de novo. “Mais forte, mais forte”, eu pedia.
Não sei quanto tempo depois, acordei com a madre superiora jogando água no meu rosto. Contei-lhe do querubim mas ela duvidou e me chamou de louca. “Além de santidade, falta-lhe também sanidade”. De nada adiantou mostrar o lençol manchado de sangue, fui expulsa do convento e da congregação.
Dormi com muitos homens depois disso, mas nenhum como o querubim.
Certa vez o jardineiro do convento apareceu na boate onde eu trabalhava. Um homem baixinho, troncudo, careca, negro como a noite, sem nenhum dente na boca. Ele ficou embasbacado ao me ver ali. “Irmã Inocência!”. Fique à vontade porque a inocência já foi embora há muito tempo”, eu lhe disse brincando.
Quando ele colocou as mãos nas minhas pernas eu me lembrei de tudo. !


Texto: IVANA ARRUDA LEITE

http://www.bravoonline.com.br/ 07/2006

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